A tecnologia a favor. Ou contra

A tecnologia a favor. Ou contra

A tecnologia está aí há anos. E, de tempos em tempos, ela evolui. Somos cobertos por diversos novos avanços tecnológicos.

Quem diria, anos atrás, que nós teriamos cirúrgias por vídeo que, além de mais seguras e confiáveis, são bem mais rápidas, tanto na execução, como na recuperação. E quem diria, anos atrás, que conversariamos com as pessoas à distância por vídeo pelo celular. E, para muitos, isso é inacreditável, ainda. E vou exemplificar com a minha avó que, longe deste mundo tecnológico, um dia me viu conversando com outra pessoa, em outra parte do mundo por vídeo, naturalmente ela ficou incrédula.

E muita gente pode achar isso incrível, por que boa parte da população, no dias de hoje, é movida por tecnologia e, a geração mais recente (desde a década dos anos 90 para cá), a famosa geração Y, que já foi nomimada por conta desta previsível onda tecnológica que invadiu o planeta, tende a ser naturalmente regida pela tecnologia. Mas, para mim, mais surpreendente do que uma senhora que não está inserida neste mundo tecnológico, por diversas questões óbvias, são as pessoas que já nascem com seus dispositivos móveis e, com o passar dos anos, não sabem utilizá-los corretamente.

Quando falo sobre “utilizá-los corretamente” é justamente usar as mídias digitais com cautela e inteligência. A maior parte das pessoas apenas compartilham o que recebem sem verificar a veracidade da informação recebida. E isso pode ser um problema maior do que imaginamos.

Eu recebo diariamente mensagens destes grupos de whatsapp com correntes, com fake news (notícias falsas), com pedidos de ajuda para alguém que precisa de sangue, ou de crianças desaparecidas e, no fim, nada é verdade. Algumas mensagens com informações inverídicas podem até não ser nada tão importante. Mas, por outro, outras tantas são. E, em tese, as pessoas que carregamos em nossos aplicativos de conversas são (ou deveriam ser) pessoas das quais gostamos e, por isso, deveriamos zelar por elas.

Semanas atrás recebi uma mensagem de uma criança que precisava de sangue. E eu acreditei. Logo eu, profissional de comunicação que estou atento ao que pode ser falso. E cai nesta mensagem por que, quem o fez, fez de forma plausível, colocando alguns dados, como o número de telefone para um contato mais imediato. Pareceia sim ser bem real. Mas ao ligar para o número, descobriamos que a mensagem não era verdadeira. Tá, aí você me perguntam: “o que aconteceu que você não viu que a mensagem era fake?”. Pois, claramente, nesta questão encontra-se o grande erro. Ela foi compartilhada tendo como elemento da mensagem algo assim: “quem precisa é a filha de um amigo meu”.

Eu jamais compartilharia uma mensagem, que foi enviada por alguém (mesmo que seja amigo meu), incluindo o trecho “quem precisa é a filha de um amigo meu”. Não! A pessoa que precisa não é minha amiga. Eu nem a conheço. Como vou mandar algo para algum amigo, ou familiar, dizendo que é amigo meu se, na verdade, não é. Eu não posso me responsabilizar pelo outro. Posso ajudá-lo de alguma forma. Então, o erro começou quando esta mensagem foi replicada aos tantos desta mesma maneira.

No contato com o telefone informado via-se a inverdade. E, uma mensagem como esta, causa sim algum transtorno por que, enumerando temos; 1. quem parou para dar a devida atenção, se preocupou e correu atrás de pessoas para arrumarem doadores?; 2. eu, e mais uma série de pessoas, pararam coisas importantes (ou deixaram de fazer coisas mais importantes) por que julgaram, naquele momento, que a situação era emergencial. Quem não faria isso, se tratando de uma criança que precisa de doação de sangue?; 3. imaginem, agora, quantas ligações o proprietário do celular recebeu com esta informação e pessoas preocupadas com uma suposta situação, que não existia?

O grande problema da tecnologia é usá-la contra nós mesmo. Eu recebo algo e replico. Mas deveria ser o contrário. Eu recebo uma mensagem e, já que tenho aparatos tecnológicos na palma da mão, antes de clicar em “compartilhar” eu clico no google e pesquiso. Eu vou me informar, vou zelar pelas pessoas que estão comigo e, no mais, não perco credibilidade por ser o disseminador de fake news.

E, por fim, outro fator que é contra nós, com a tecnologia, é o desrespeito. O que ocorre, normalmente e, de forma inconsciente, é “eu comento o que quero, como quero e na hora que eu quiser sobre qualquer coisa que as pessoas postarem. Não importa se é importante para o outro, importa somente o que eu penso e o que eu quero falar.”

Com a tecnologia parece as pessoas tiveram sua necessidade de falar (escrever, neste caso) aumentado, uma grande necessidade de mostrar “eu estou aqui, me observe”. E neste contexto, uns desrespeitam os outros.

A tecnologia é algo sensacional e, muita vezes, mágico, mas é preciso consciência e inteligência para usá-la.

Rafael Gmeiner
Diretor de Comunicação da Agência VitalCom